domingo, 22 de maio de 2011

Zé Ramalho,"Vida de gado"





Vida de gado
Zé Ramalho


Vocês que fazem parte dessa massa,
Que passa nos projetos, do futuro
É duro tanto ter que caminhar
E dar muito mais, do que receber.
E ter que demonstrar, sua coragem
A margem do que possa aparecer.
E ver que toda essa, engrenagem
Já sente a ferrugem, lhe comer.

Eh, ôô, vida de gado
Povo marcado, ê
Povo feliz
Eh, ôô, vida de gado
Povo marcado, ê
Povo feliz

Lá fora faz um tempo confortável
A vigilância cuida do normal
Os automóveis ouvem a notícia
Os homens a publicam no jornal
E correm através da madrugada
A única velhice que chegou
Demoram-se na beira da estrada
E passam a contar o que sobrou.

Eh, ôô, vida de gado
Povo marcado, ê
Povo feliz
Eh, ôô, vida de gado
Povo marcado, ê
Povo feliz

O povo, foge da ignorância
Apesar de viver tão perto dela
E sonham com melhores, tempos idos
Contemplam essa vida, numa cela
Esperam nova possibilidade
De verem esse mundo, se acabar
A arca de Noé, o dirigível
Não voam, nem se pode flutuar,
Não voam nem se pode flutuar,
Não voam nem se pode flutuar.

Eh, ôô, vida de gado
Povo marcado e,
Povo feliz
Eh, ôô, vida de gado
Povo marcado e,
Povo

Enviado por Andréa Marinovic , tecendo o seguinte comentário: “Uma vez mestre, sempre mestre! Apenas citando Tércio Sampaio Ferraz Jr: "Ser livre é estar no direito e, no entanto, o direito também nos oprime e tira-nos a liberdade". Enquanto houver homens vivendo vida de gado, há que se questionar se o fenômeno "direito" está cumprindo seu papel. Novamente Tércio: "direito é um mistério, o mistério do princípio e do fim da sociabilidade humana".

Casta Diva




Bellini, Ópera "Norma"





No tempo da ocupação romana da Gália, uma sacerdotisa se envolve com um oficial inimigo e fica dividida entre a lealdade à pátria e o amor pelo estrangeiro. "Norma" é uma das obras-primas do belcanto e traz um dos papéis de soprano mais exigentes do repertório italiano. Seu autor, o siciliano Vincenzo Bellini (1801-1835), viveu pouco tempo, mas se tornou um paradigma internacional de excelência como autor de melodias. O mago polonês do piano Frédéric Chopin (1810-1849), por exemplo, era ardoroso admirador da arte de Bellini.

Texto retirado da página da coleção "Folha Grandes Óperas" .


Carla Eugenia Caldas Barros aduz: “traição à pátria - guerra no direito internacional.”

"Ouro de Tolo" Raul Seixas





Ouro de Tolo
Raul Seixas
Composição : Raul Seixas

Eu devia estar contente
Porque eu tenho um emprego
Sou um dito cidadão respeitável
E ganho quatro mil cruzeiros
Por mês...

Eu devia agradecer ao Senhor
Por ter tido sucesso
Na vida como artista
Eu devia estar feliz
Porque consegui comprar
Um Corcel 73...

Eu devia estar alegre
E satisfeito
Por morar em Ipanema
Depois de ter passado
Fome por dois anos
Aqui na Cidade Maravilhosa...

Ah!
Eu devia estar sorrindo
E orgulhoso
Por ter finalmente vencido na vida
Mas eu acho isso uma grande piada
E um tanto quanto perigosa...

Eu devia estar contente
Por ter conseguido
Tudo o que eu quis
Mas confesso abestalhado
Que eu estou decepcionado...

Porque foi tão fácil conseguir
E agora eu me pergunto "e daí?"
Eu tenho uma porção
De coisas grandes prá conquistar
E eu não posso ficar aí parado...

Eu devia estar feliz pelo Senhor
Ter me concedido o domingo
Prá ir com a família
No Jardim Zoológico
Dar pipoca aos macacos...

Ah!
Mas que sujeito chato sou eu
Que não acha nada engraçado
Macaco, praia, carro
Jornal, tobogã
Eu acho tudo isso um saco...

É você olhar no espelho
Se sentir
Um grandessíssimo idiota
Saber que é humano
Ridículo, limitado
Que só usa dez por cento
De sua cabeça animal...

E você ainda acredita
Que é um doutor
Padre ou policial
Que está contribuindo
Com sua parte
Para o nosso belo
Quadro social...

Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...

Ah!
Eu que não me sento
No trono de um apartamento
Com a boca escancarada
Cheia de dentes
Esperando a morte chegar...

Porque longe das cercas
Embandeiradas
Que separam quintais
No cume calmo
Do meu olho que vê
Assenta a sombra sonora
De um disco voador...

Cinema paradiso





Mônica Sette Lopes diz: “Cena e música do programa antigo, da primeira safra, que estamos reprisando na Rádio Justiça e que é o de hoje. Para falar de Platão. Pode ser maionese demais para viajar, mas essa sala de projeção é um sair da caverna para este personagem e para que ele conheça, o que é fundamental para se entender a justiça baseada do equilíbrio entre as partes.

LÁGRIMA DE PRETA





Os Direitos do Homem num Poema de António Gedeão, musicado por Manuel Freire.

LÁGRIMA DE PRETA

Encontrei uma preta

que estava a chorar,

pedi-lhe uma lágrima

para a analisar.

Recolhi a lágrima

com todo o cuidado

num tubo de ensaio

bem esterilizado.


Olhei-a de um lado,

do outro e de frente:

tinha um ar de gota

muito transparente.


Mandei vir os ácidos,

as bases e os sais,

as drogas usadas

em casos que tais.


Ensaiei a frio,

experimentei ao lume,

de todas as vezes

deu-me o que é costume:

Nem sinais de negro,

nem vestígios de ódio.

Água (quase tudo)

e cloreto de sódio.

Faz o seguinte comentário:
“Este é um poema sobre Química e Discriminação Racial “

"SECAS DE MARÇO " -Jessier Quirino

SECAS DE MARÇO
Jessier Quirino
(Foi feita em cima de Águas de Março, do Tom Jobim)

É pau, é pedra, é o fim do caminho
É um metro, é uma légua, é um pobre burrinho
É um caco de vida, é a vida, é o sol
É a dor, é a morte, vindo com o arrebol

É galho de jurema, é um pé de poeira
Cai já, bambeia, é do boi a caveira
É pé de macambira invadindo a cocheira
É vaqueiro morrendo, é a reza brejeira

É angico, é facheiro, é aquela canseira
É farelo, é um cisco, é um resto de feira
É a fome na porta, é um queira ou não queira
Na seca de março, é a fuga estradeira

É o pé, é o chão, é a terra assadeira
É o menino na mão, e mais dez na traseira
É um Deus lá no céu, Padre Ciço no chão
É romeiro rezando dentro de um caminhão

É um filho disposto partindo sozinho
No sul com a esperança, é um novo caminho
É o pai fatigado, é a mãe a lutar
É a cacimba distante, é a lata a pingar

É carcaça de bicho, é o mandacaru
É o mau cheiro chegando, é o vôo do urubu
É barriga de vento, é o corpo na rede
É anjinho morrendo, é a sede, é a sede

É o canto agourento daquela acauã
É o vôo da asa-branca no sol da manhã
É a seca de março torrando o sertão
É promessa de vida, é a nova eleição

É doutor deputado, é doutor coroné
É um pão, é uma feira, é um remédio no pé
É um poço, é uma pipa, é um cantor, é uma fã
É a troca e o troco, é depois de amanhã

É a seca de março torrando o sertão
É a promessa devida da outra eleição
É a seca de março torrando o sertão
É a promessa devida da outra eleição

É pau, é pedra, é o fim do caminho.

(Está no CD Prosa Morena, de Jessier Quirino)